Política Nacional

Jovair Arantes e Paulinho da Força receberam R$ 4 milhões de propina

Veja veiculou vídeo com imagens e áudios com menções aos políticos
Fonte: Veja | Editor: Paulo Pincel 05/03/2018 18:31
Paulinho da Força, réu em três processos no STF Paulinho da Força, réu em três processos no STFFoto: David Ribeiro/Agência Câmara

Para liberar registros sindicais no Ministério do Trabalho, era necessário pagar propinas ao PTB e ao Solidariedade, diz a revista Veja desta semana. De acordo com a reportagem da revista, divulgada na sexta-feira (2), lobistas acertavam o pagamento das propinas para que os registros fossem liberados. Os deputados Jovair Arantes (PTB-GO) e Paulinho da Força (SD-SP) são acusados de participar do esquema. A PF encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de investigação contra os parlamentares, diz a revista, que veiculou vídeo com imagens e áudios com menções aos políticos.

A publicação obteve gravação dos lobistas Silvio de Assis e Verusca Peixoto cobram do empresário Afonso Rodrigues de Carvalho propinas de cerca de R$ 4 milhões para liberar uma licença que o empresário tentava obter desde 2012. O líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO) nega qualquer envolvimento, diz sequer conhecer os lobistas e que a reportagem da revista faz “ilações infundadas e injustas ao relacionar dois agentes públicos filiados ao PTB” (veja a íntegra da nota do deputado abaixo). Paulinho da Força ainda não se manifestou sobre o caso.

A reportagem conta que, no ano passado, Afonso quase conseguiu a licença para sua empresa, mas o processo acabou parado, e foi então que conheceu os dois lobistas, que pediram R$ 4 milhões para concluir o processo.

Os áudios aos quais a reportagem de Veja teve acesso foram gravados por Afonso e levados à Polícia Federal, que pediu ao empresário que continuasse as negociações com os lobistas. A revista mostra ainda que, após reclamar do valor alto da propina, o empresário conseguiu que o valor caísse para R$ 3,2 milhões, que seriam pagos sob a justificativa da contratação dos serviços de consultoria dos lobistas. O empresário chegou a entregar três cheques.

Parte do diálogo mostra um dos lobistas afirmando que Jovair estava “junto com eles” por ter força no Goiás e que, no cálculo da propina, R$ 500 mil seriam destinados ao suborno da parte técnica, e “uma ponta” seria destinada ao líder petebista. Verusca é a única que admite cobrança e pagamento de propina.

Sobrinhos de Jovair e indicado de Paulinho

O valor pedido pelos intermediários foi, no entendimento da PF, destinado ao pagamento de propina a técnicos e políticos envolvidos no esquema, sendo eles p líder petebista na Câmara e o presidente do Solidariedade, deputado Paulinho da Força. Para PF, o SD também participava do esquema, uma vez que o secretário de Relações do Trabalho, Carlos Cavalcante Lacerda, foi indicado por Paulinho ao cargo.

Acertada a propina, a PF pediu que afonso marcasse nova reunião com Verusca para comprovar o envolvimento dos políticos. A lobista apresentou o empresário a Rogério Arantes, que é diretor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e sobrinho do deputado petebista. Rogério, que receberia R$ 1 milhão em propina no caso, teria prometido interceder a favor de Afonso com Leonardo Arantes, outro sobrinho de Jovair, que é secretário-executivo do Ministério do Trabalho.

PTB e o ministério do Trabalho

O PTB foi protagonista de uma novela no ministério do Trabalho no início deste ano. Após o pedido de demissão do ministro Ronaldo Nogueira, a pasta decidiu indicar a filha do presidente do partido, deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ). O presidente Michel Temer nomeou a deputada fluminense no dia 3 de janeiro, mas a revelação de que a deputada havia sido condenada em um processo trabalhista começou uma série de embróglios e polêmicas envolvendo Cristiane.

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Reprodução

No dia 8, após a revelação da condenação trabalhista da deputada, que motivou uma ação popular para impedi-la de assumir, a posse da ministra nomeada foi barrada pela primeira vez. Desde então, Cristiane e o PTB se mobilizaram sem sucesso para tentar garantir que ela assumisse a pasta.

Após o primeiro impedimento, a Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com recurso para liberar a posse, marcada para o dia seguinte, mas pouco antes do início da cerimônia, o recurso foi negado e a solenidade foi suspensa às pressas. Em 19 de janeiro, o STJ foi o responsável pela decisão que liberou a posse da ministra, que foi marcada para a segunda-feira seguinte, mas a ministra Cármen Lúcia decidiu, nas primeiras horas do dia 22, suspender a posse novamente. Cármen Lúcia cassou a liminar que autorizava a posse no dia 15 de fevereiro.

Cristiane foi condenada, em 2016, a pagar R$ 60,4 mil em dívidas trabalhistas a um motorista que prestou serviços ela e sua família entre 2012 e 2014. De acordo com a ação, o motorista Fernando Fernandes trabalhava cerca de 15 horas por dia e não tinha carteira assinada. Na versão da nova ministra, o motorista exercia trabalho eventual e nunca foi seu empregado.
Outro processo contra ela foi aberto em 2017, por outro motorista, mas não prosseguiu após as partes aceitarem uma conciliação.

O ex-funcionário trabalhou para ela e sua família entre 2014 e 2015. Ela se comprometeu a pagar ao reclamante R$ 14 mil em dez parcelas a assinar a carteira de trabalho. O jornal O Globo revelou que os R$ 1,4 mil pagos mensalmente ao ex-motorista saem da conta de Vera Lúcia Gorgulho Chaves de Azevedo, lotada no gabinete de Cristiane na Câmara dos Deputados.

Um mês após sua nomeação, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que a deputada é investigada, desde 2010, por associação ao tráfico no Rio de Janeiro em um inquérito aberto pela Polícia Civil no Rio de Janeiro, remetido ao STF no dia 2 de fevereiro privilegiado. De acordo com o Estadão, que teve acesso ao inquérito policial, Cristiane, seu ex-cunhado, o deputado estadual Marcus Vinicius (PTB) e três assessores dela na época também são investigados por supostamente dar dinheiro a traficantes para que pudessem fazer campanha com “direito exclusivo” no bairro de Cavalcanti, na zona norte do Rio. Há quase oito anos, o inquérito estava na Delegacia de Combate às Drogas do Rio.

Após mais de um mês de impasses, o presidente da sigla Roberto Jefferson – que chegou a chorar quando Temer anunciou a indicação de Cristiane, afirmando que aquele momento marcava um “resgate da família” – comunicou a retirada da indicação da filha no dia 21 de fevereiro. Na ocasião, ficou acordado que o partido voltaria a indicar um nome para assumir a pasta durante a reforma ministerial quye deve acontecer a partir deste mês. O também petebista e ex-advogado de Cristiane Brasil, Helton Yomura, é o atual ministro interino do Trabalho.

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