Política Nacional

Heráclito apagou incêndio na base do governo Temer

Deputado atuou como bombeiro e saiu a campo para conter as chamas e evitar o pior
Fonte: Valor Econômico/Andrea Jubé/De Brasília | Editor: Paulo Pincel 23/10/2017 17:02
O "bombeiro" Heráclito Fortes O "bombeiro" Heráclito FortesFoto: Montagem

Na semana mais difícil para o presidente Michel Temer, em 17 meses de governo, os termômetros marcaram 37 graus em Brasília, um recorde na capital federal e quase um prenúncio do incêndio que assolaria a Praça dos Três Poderes se o primeiro e o segundo nome na hierarquia do poder não voltassem a se falar.

Em meio à alta temperatura entre o presidente da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e na iminência do julgamento da segunda denúncia contra o chefe do Executivo, o deputado Heráclito Fortes (PSB-PI) vestiu o uniforme de bombeiro e saiu a campo para conter as chamas e evitar o pior.

Amigo de Temer há mais de 30 anos e também de Cesar Maia, pai de Rodrigo, ele sentiu-se credenciado para mediar a reaproximação dos antigos aliados. A empreitada começou na noite da última segunda-feira, quando Heráclito jantou com Rodrigo Maia e sentiu faíscas pelo ar. Ele ainda retornou na terça-feira para o café da manhã com Maia.

Horas depois, recebeu Michel Temer e o ministro Moreira Franco, casado com a sogra de Maia, para um almoço em sua casa no Lago Sul. Nesse almoço, havia mais dois parlamentares do convívio íntimo do presidente da Câmara, Benito Gama (PTB-BA) e Alexandre Baldy (PODE-GO).

Na quarta-feira pela manhã, após nova rodada de conversas, convenceu Temer a procurar Maia. Foi quando o presidente da República enviou um whatsapp ao presidente da Câmara, rompendo o gelo de mais de 20 dias, em plena discussão da segunda ação penal contra o pemedebista.

Um whatsapp parece pouco, mas foi o suficiente para, ao menos, restaurar a comunicação entre os dois. “Eu disse a eles que se os dois primeiros nomes na hierarquia do poder não estão se entendendo, isso só poderia terminar em desastre”, relata o deputado pelo Piauí.

A relação entre o chefe do Executivo e o do Legislativo azedou no final de setembro, quando o PMDB de Temer filiou o senador Fernando Bezerra Coelho (PE), dissidente do PSB. Havia dois meses, Maia articulava o ingresso do parlamentar e de seu filho – o ministro de Minas e Energia e deputado licenciado, Fernando Coelho Filho – ao novo partido que resultará da fusão do DEM com siglas menores e dissidentes do PSB. Temer tinha assegurado que o PMDB não atrapalharia os planos do DEM.

Maia declarou ao Valor que “não fez com Temer o que ele [Temer] fez com Dilma”.

No auge do calor, no dia em que a temperatura atingiu os 37 graus, Temer soltou uma indireta pública a Maia em carta enviada aos deputados denunciando que estava em curso uma “urdidura conspiratória” contra ele. Assim como na primeira votação, voltaram a circular rumores de conspiração do segundo na hierarquia contra o primeiro.

Heráclito é discreto, habilidoso, e como os craques da política, atua nos bastidores. Na sua casa, nos restaurantes, nas rodas reservadas, menos na tribuna. É sintomático que um dos cenários da movimentação para reaproximar Temer e Maia seja a casa de Heráclito. Poucos lugares em Brasília foram palco, tantas vezes, de articulações decisivas para o destino do país. Ele foi o anfitrião de jantares quinzenais para traçar a estratégia sobre o impeachment de Dilma Rousseff.

O segredo para atrair as reuniões políticas para sua casa é a cozinha, de onde saem a rabada mais concorrida da capital, o picadinho e a galinhada que levou Temer e Moreira Franco à mesa na última terça-feira.

Para acomodar os paladares mais influentes de Brasília em volta da mesa, Heráclito criou as “quintas sem lei “, em que os convidados para o almoço não podem ter hora para sair. São recebidos com vinhos selecionados e acepipes a fim de que se preparem para não comer antes das 14 horas.

‪“Disse a eles que se os dois primeiros nomes na hierarquia não estão se entendendo, isso só terminaria em desastre”

À mesa, menções a Tancredo e Ulysses alternam-se com análises argutas da cena atual e os chistes do anfitrião. Ele aponta a paçoca de carne de sol e intima o comensal: “Prove, acordei às 4 horas para amassar no pilão”. Depois indica o figo seco: “Acordei às 5h para colher no quintal”.

Ao chegar, os convidados têm que passar pela “recepcionista” Tieta, uma cadela da raça Jack Russell batizada com o nome da personagem de Jorge Amado. Sentado em uma poltrona de couro estilo barroco, comprada em Miami, o deputado leva sobre uma perna a valente Tieta, que mostra os dentes aos que tentam se aproximar para cumprimentá-lo.

Tieta é outro laço de Heráclito com Temer: ela é mãe do cachorro de Michelzinho, filho de sete anos do presidente. Batizado de Picoly, ele convive com Thor, o golden retriever que ganhou fama ao aparecer nas redes sociais com ar de enfado, enquanto recebe um afago de Temer.

Sagaz, Heráclito tem talento para frases de efeito e respostas afiadas. Chamado de “Boca Mole” nas planilhas da Odebrecht, ele logo declarou que se sentia até honrado porque se tratava justamente do apelido de Tancredo Neves, ao lado de quem militou na campanha das Diretas-Já em 1984. Em abril, o Supremo Tribunal Federal abriu inquérito para investigar doações de R$ 200 mil da construtora para sua campanha ao Senado em 2010, mas ele esclarece que os recursos foram declarados à Justiça Eleitoral.

Aos 67 anos, foi senador pelo Piauí e prefeito de Teresina, onde nasceu. Realizou a proeza de estrear em 1978 pela Arena, partido de apoio ao regime militar, e depois migrar para a oposição: o PMDB de Ulysses Guimarães, ao lado de quem percorreu o país durante o processo de redemocratização.

Seu partido seguinte foi o PFL, transformado em DEM, onde alcançou notoriedade como um dos líderes da oposição ao governo Lula no Senado. Em 2010, porém, sofreu o maior revés de sua carreira.

Em campanha para eleger Dilma Rousseff, Lula elegeu Heráclito e os também senadores Agripino Maia (DEM-RN) e Arthur Virgílio (PSDB-AM) como algozes a serem derrotados nas urnas. E conseguiu. Apenas Agripino reelegeu-se. “Fui ao fundo do poço, mas fundo do poço tem mola e eu voltei”.

Passou quatro anos sem mandato, mas com espírito agregador, manteve as “quintas sem lei”, reunindo parlamentares e jornalistas em sua casa para manter-se informado e não se isolar. Com o DEM “dizimado” por Lula e pelo PT no Piauí, passou a ser assediado pelo PSDB e pelo PSB para disputar o pleito de 2014.

Em novo salto ideológico, trocou o DEM pelo PSB, levado pelo projeto presidencial do governador de Pernambuco Eduardo Campos. Gaiato, saiu contando a novidade aos amigos, em tom de gracejo: “Já sabe? Virei socialista”.

Mas, sério, ressalta que entrou para o PSB, onde hoje é dissidente, levado por Eduardo Campos. “Sempre gostei de projeto político de futuro, Eduardo tinha uma coragem pessoal de poucos”. Ele seria o palanque principal de Eduardo no Piauí, não fosse a trágica queda do avião há três anos. Agora, está de malas prontas para retornar ao DEM, no projeto de Rodrigo Maia.

Nas últimas semanas, também passou a se dedicar à construção da chapa presidencial do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), de quem foi o coordenador da campanha presidencial de 2006. Heráclito é amigo de Alckmin e do prefeito de São Paulo, João Doria, que disputam a vaga de presidenciável do PSDB. Uma articulação em curso é uma chapa encabeçada por Alckmin, com Rodrigo Maia como candidato a vice-presidente.

Mas a relação com Alckmin remonta a 30 anos, aos tempos da Assembleia Constituinte. Ele recorda que foi o ‘doutor Ulysses’ quem o apresentou a Alckmin e Michel Temer, todos deputados constituintes pelo PMDB. Ulysses teria apontado ambos a Heráclito e recomendado: “Preste atenção nesses dois, eles têm futuro”. Anos mais tarde, Heráclito ainda seria vice-presidente da Câmara em uma das três gestões de Temer no cargo.

Já com Rodrigo Maia, os laços também começaram a ser construídos na Constituinte, com o pai dele, Cesar Maia, que viria a comandar por três vezes a Prefeitura do Rio. Quando ele e Cesar Maia se conheceram, Rodrigo tinha 12 anos.

Heráclito relembra, bem humorado, que pouco depois da promulgação da Constituição, Cesar Maia, então no PDT de Leonel Brizola, confidenciou-lhe o desejo de ingressar no PMDB. Heráclito ia embarcar com Ulysses – então presidente da Câmara e do PMDB, – em uma viagem oficial para Espanha e recomendou-lhe que levasse Cesar Maia, para discutirem a filiação à sigla. Sua boa intenção custou-lhe a vaga na viagem e apenas Cesar Maia embarcou com o presidente do PMDB porque não havia espaço para todos.

Mas, atualmente, Heráclito tem vaga cativa nas viagens oficiais do presidente Rodrigo Maia: integrou as comitivas do deputado fluminense para o Azerbaijão, Itália e Argentina. No calor dos ânimos na semana passada, convenceu Maia a cancelar viagem que fariam ao Chile, para não soar como falta de solidariedade a Temer.

Passadas quatro décadas, Heráclito mantém a influência no poder. Hoje, como poucos, é amigo tanto do presidente da República quanto do presidente da Câmara. Também é amigo de ambos os presidenciáveis tucanos, Alckmin e João Doria. E de Fernando Henrique e José Sarney, outro frequentador de sua casa. Uma ironia já que na morte de Tancredo, em meio à dor, ele lamentou que em sete anos de atuação política, pela primeira vez teria um amigo no Palácio do Planalto.

Recorre, sempre que necessário, às lições do passado para aplicá-las às crises do presente. Sobre superar ressentimentos, no caso de Temer e Maia, vem-lhe à mente a criação da Frente Liberal para eleger Tancredo. A coligação uniu dois opostos, dissidentes do PDS e PMDB, que passaram a se desentender em meio à campanha. Até que Heráclito fez a Ulysses uma ponderação que vale para a crise atual: “Essa aliança é que nem casamento com prostituta. Se não esquecer o passado não tem como funcionar”.

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