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Fraude: quatro concursos foram anulados em três anos no Piauí

Fonte: Paulo Pincel | Editor: Paulo Pincel 10/05/2017 11:00
Os mandados judiciais da Operação Infiltrados Os mandados judiciais da Operação InfiltradosFoto: Polícia Civil do Piauí

Boa parte dos alunos matriculados em cursinhos específicos para concursos públicos estão desistindo de frequentar as aulas. A queda na procura por matrículas fez com que muitos desses cursinhos específicos fechassem as portas nas principais cidades do Piauí. A mesma praga contagiosa que se espalhou pelo Nordeste e pelo Brasil é a causa da diminuição da demanda: a fraude. Dos quatro concursos realizados no Piauí nos últimos três anos, três foram anulados.

A audácia das quadrilhas e a certeza da impounidade dos criminosos impressionam. Duas dessas fraudes envolveram concursos realizados pela própria polícia, a quem cabe investigar esses delitos, e a Justiça, que tem a atribuição constitucional de punir os culpados por esses crimes.

O resultado a Operação Infiltrados, desencadeada na madrugada de terça-feira (9) da Polícia Civil do Piauí em Teresina, Campos Maior, Pedro II e São Raimundo Nonato, para cumprimento de 23 mandados judiciais – também cumpridos em além de Fortaleza, no Ceará, e Araripina, em Pernambuco, revelou que as mesmas quadrilhas atuam há muito tempo no Nordeste. E tem toda uma estrutura de atuação, com cabeça, tronco e membros.

Dois acusados, que têm formação superior, são apontados como os cabeças, os "chefes" da organização; vários policiais civis e agentes penitenciários aprovados em concursos realizados anteriormente atuavam como cobradores dos outros beneficiários do esquema, aprovados através da fraude. Por trás de tudo, nos bastidores, agiam os advogados da quadrilha, atuando inclusive para corromper autoridades.

A descoberta do esquema só reforça a certeza de levou à descrença de muitos candidatos, pessoas honestas que gastam tempo e dinheiro se preparando para as provas, “ralando” [como eles dizem] todos os dias e que são prejudicados pela atuação dos fraudadores, inclusive pessoas ligadas à organização dos certames.

Rotina

Em um rápido levantamento, o PORTAL PIAUIHOJE.COM contabilizou pelo menos quatro concursos anulados no Piauí em cinco anos, por conta da fraude: Secretaria de Justiça, Tribunal de Justiça, Corpo de Bombeiros e Eletrobras-Piauí. Não foram incluídas as fraudes que acontece nos concursos promovidos pelas prefeituras no interior do piauí, onde a maioria dos aprovados são familiares, parentes ou "afilhados" dos prefeitos e secretários municipais.

Secretaria de Justiça

No final do ano passado, a Secretaria de Justiça do Piauí, tendo à frente o secretário Daniel Oliveira, anulou a primeira etapa do concurso para formação de cadastro de reserva para o cargo de agente penitenciário - por coincidência, a cargo do Núcleo de Concursos e Promoção de Eventos da Universidade Estadual do Piauí (Nucepe), que também organizou o concurso da Polícia Civil, em 2012, na gestão do estão secretário de Segurança Pública, Robert Rios Magalhães.

O concurso da Sejus oferecida 400 vagas, com salário inicial é de R$ 5.966,14, sendo que 75 classificados seriam chamados imediatamente. No dia 18 de setembro do ano passado, a Polícia Civil prendeu quatro pessoas durante a aplicação da prova. Entre os presos, o advogado Evilásio Rodrigues de Oliveira, preso anteriormente tentando fraudar o concurso do Tribunal de Justiça.

TJ-PI

Nada menos que 42 mil candidatos inscritos e 38 mil presentes às provas. Em jogo, 180 vagas de emprego, com estabilidade e excelente salário. No dia da prova, em 10 de março de 2016, a Operação Véritas, cumpriu 100 mandados de busca e apreensão, prisão e condução coercitiva. Pelo menos 70 pessoas, suspeitas de envolvimento na fraude foram levadas à Greco. O então presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Raimundo Eufrásio, manteve o concurso, organizado pela Fundação Getúlio Vargas, mas eliminou 50 candidatos beneficiados com a fraude.

Corpo de Bombeiros

As provas do concurso para soldado do Corpo de Bombeiros do Piauí, em 2014, também foram anuladas por fraude. Operação Vigiles, derivada da Operação Véritas e deflagrada em novembro de 2016, cumpriu 36 mandados de prisões, 35 mandados de condução coercitiva e 71 de busca e apreensão. Foram 28 presos, entre eles o advogado Evilásio.

Eletrobrás Piauí

Dois anos antes, Eletrobrás Distribuição Piauí (antiga Cepisa), decidiu anular o concurso público nº 001/2013 realizado no dia 10 de novembro, por vários indícios de fraude, denunciada pelos próprios candidatos que participaram das provas.

Como tantas outras instituições no país – governos, tribunais, legislativos - principalmente o Congresso Nacional (Câmara e Senado), só para citar - corrompidas pelas quadrilhas montadas nos órgãos e Poderes, a porta “estreita” para o ingresso no serviço público foi arrombada pela fraude. O concurso público, que deveria avaliar e premiar a inteligência, o raciocínio, o conhecimento técnico e científico, o “domínio” da língua pelos candidatos, foi transformado em moeda de troca. Onde passa quem pode pagar.

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