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Filho de vendedora de rede supera a dependência química e se forma em Direito

Conheça a história de superação de Carlos Eduardo, que já foi envolvido com drogas e superou o vício após internação na Fazenda da Paz
Fonte: Alinny Maria 21/02/2019 13:08
Carlos Eduardo em sua colação de grau Carlos Eduardo em sua colação de grauFoto: Facebook/Célio Barbosa
  • “Desistir é uma palavra que não existe no meu vocabulário! Situações para eu desistir foram muitas, porém eu nunca entrei em um jogo para desistir, nunca! Tudo aquilo que dependeu de mim, para eu conquistar meus objetivos, eu fiz. E logicamente que Deus, Jesus Cristo em sua grandiosidade, foi quem me conduziu à vitória, foi quem esteve comigo e me deu força, mas desistir não faz parte dos meus pensamentos”, declara Carlos Eduardo, ex-dependente químico, ex-integrante de gangue e Bacharel em Direito.

Até os 14 anos de idade, Carlos Eduardo de Sousa Costa tinha uma vida normal como a maioria dos adolescentes. Ele vivia para estudar e brincar até que passou a se envolver com más companhias e mudou sua rotina completamente. Aos 15 anos ele conheceu o sombrio mundo das drogas, onde permaneceu por cinco anos. Após uma série de desafios, insistência da família e apoio de amigos, a vida de Carlos Eduardo mudou completamente. A história do ex-dependente químico é um exemplo de superação e hoje ele comemora sua formação em Bacharel em Direito.

A solenidade de formatura de Carlos Eduardo ocorreu na noite dessa quarta-feira (20), dia marcado por emoção e orgulho. Mas antes desta grande conquista, a caminhada de Carlos Eduardo foi marcada por desafios que foram superados com base na fé e determinação.

Filho de uma vendedora de rede e nascido no município de Pedro II, a 167 km de Teresina, Carlos Eduardo atualmente tem 28 anos e mudou-se para Teresina para se recuperar do vício por drogas. Ele conta que quando adolescente passou a experimentar vários tipos de drogas sob influência de colegas. O jovem também já foi envolvido com uma gangue de Goiás que traficava drogas. Apesar de ter se envolvido os traficantes, ele não chegou a ser detido.

Quando tudo começou

“A minha rotina até os 14 anos era de um adolescente normal, que vivia para estudar, para fazer suas tarefas do colégio, para brincar. Aos 15 anos eu iniciei amizades incomuns, amizades que minha mãe chamava a atenção para eu ter cuidado e não me envolver. Minha cabeça na época, como adolescente, eu fiz o inverso e me aproximei mais ainda dessas amizades. Passei a ir para Reggaes, a me envolver com gangues e para o uso de drogas foi apenas um passo. Todas as drogas que usei sempre foi motivada por um colega, um amigo daquele núcleo e assim acabei caindo no crack, que ao tempo que foi minha destruição, também foi a minha libertação, pois através dele a minha família passou a buscar ajuda”, explica Carlos Eduardo.

Carlos Eduardo informou que sua família procurou ajuda primeiramente em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), onde ele frequentou por um mês, mas não teve sucesso. “O trabalho do CAPS é através de medicamentos, e medicamentos era o que eu estava tomando todos os dias, era drogas, então não serviu para mim”.

A família de Carlos Eduardo continuou a busca por alternativas para tirá-lo do mundo das drogas quando conheceu a Fazenda das Paz – Instituição não governamental que oferece acolhimento a dependentes químicos, promovendo a reinserção familiar e social – e passou a frequentar as reuniões antes de Carlos Eduardo.

Mudar é preciso

Decidido a ter uma vida diferente, Carlos Eduardo começou a frequentar as reuniões, mas demorou um pouco para se internar. “Já na terceira ou quarta reunião na Fazenda da Paz que eu passei a frequentar com a possibilidade de internação. Aí passei dezembro, janeiro, fevereiro e já no dia 12 de março de 2010 eu me internei na Fazenda da Paz. Lá a gente entra com a esperança acabada, destruído, mas Deus em sua plenitude, com todo o seu poder, foi me dando discernimento para eu poder continuar”. diz Carlos Eduardo.

O jovem na época passou seis meses para aceitar a sua nova vida, como uma pessoa recuperada. Carlos Eduardo ficou um ano e uma semana em recuperação na Fazenda da Paz, saindo em 2011. Na instituição ele participava de um preparatório para vestibular em parceria com a Secretaria Estadual de Educação (Seduc).

Um novo homem

Logo após deixar a Fazenda da Paz, Carlos Eduardo conseguiu um emprego em uma faculdade. Por trabalhar na área de educação, em 2012, com 21 anos, Carlos Eduardo decidiu retomar os seus estudos. Ele havia parado na 7ª série.

Pronto para seguir a nova vida, fez a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e teve várias aprovações em 2013, conseguido o certificado de Ensino Médio. "Fiz o Enem duas vezes e passei em vários cursos. Passei na Uespi e Ufpi para Pedagogia, História, Educação Física, por exemplo, mas preferi aguardar porque o curso que eu queria era Direito”.

Ainda muito jovem Carlos Eduardo tinha o sonho de estudar Direito. “Desde novo me interessei pelo Direito porque iniciei meu trabalho de jovem aprendiz em um escritório de advocacia, que inclusive me ajudou bastante a sair da droga. Entrei no escritório como uma pessoa trabalhadora, normal como qualquer jovem com anseio de aprender e sai de lá um drogado, não por lá obviamente, mas eles entenderam que aquele período meu não era de uma pessoa normal, mas de uma pessoa que precisava de tratamento. Então os três responsáveis pelo escritório me apoiaram a procurar tratamento e me acompanharam durante todo o tratamento, me faziam visitas na Fazenda da Paz, me enviam cartas. Convivi com várias situações em que esses advogados agiram com sabedoria, com inteligência, com brilhantismo, e isso chamou a minha atenção ao ponto de escolher a formação de Direito como a minha formação profissional”, conta.

Diploma de superação

Carlos Eduardo ingressou na faculdade no primeiro semestre de 2014 e no dia 20 de fevereiro de 2019, ele formou-se em Direito. Ele já passou na primeira fase do exame da OAB e fará a segunda fase em maio. Carlos Eduardo está se especializando em Direito Penal e Processo Penal.

“A graduação tem um sentimento diferenciado para mim. Não é só um título, não é só um certificado de graduação, e sim um certificado de vitória, de conquista e de esperança de mais conquistas, que é o que quero para a minha vida”.

Carlos Eduardo e Célio Barbosa (Carlos Eduardo ao lado do coordenador da Fazenda da Paz, Célio Barbosa/Foto: Arquivo pessoal)

Fazenda da Paz foi fundamental para a vitória

O coordenador da Fazenda da Paz, Célio Barbosa, contou um pouco da trajetória de Carlos. “Ele passou por um processo de recuperação e de todas as ações necessárias para ter uma transformação que a Fazenda da Paz entrega para as pessoas. Nosso plano terapêutico é muito forte, dando uma oportunidade de transformação. Ele chegou aqui através do Dr. Josino e ele participou de todas as ações na época em que ele era envolvido com a criminalidade e teve um processo de recuperação como todo mundo. Deu problema, quis ir embora, enfim. Coincidiu que a Fazenda da Paz fez uma parceria com a Seduc e ele tinha a 7ª série e fez todas as provas para conseguir o ensino médio", diz Célio.

Célio destaca que a transformação de vida de Carlos Eduardo foi muito grande, pois ele conseguiu vencer todos os obstáculos. “Ele venceu os obstáculos com a sociedade, pois todos sabem que a sociedade não perdoa, e ele voltou para o mesmo lugar onde ele fazia as ações e conseguiu se superar, conseguiu as mudanças, e hoje ele é exemplo para todos nós, que não há limites de transformação. A Fazenda da Paz é muito alegre por participar dessa transformação, ela não faz a transformação das pessoas, ela entrega as ferramentas para a mudança. Estou muito feliz, recebi um homem totalmente destruído pelas drogas e ele me convidou para entrar na formatura com ele”, diz emocionado o coordenador da Fazenda da Paz.

Para quem está enfrentando problemas com drogas e pensa que tudo está acabado, Carlos Eduardo deixa uma mensagem: “Crer em Jesus Cristo é a chave para minhas conquistas. Então, creiam nele, coloquem nas mãos dele seus objetivos e corra atrás, pois as barreiras são muitas, porém a vitória é certa”, conclui.

Carlos Eduardo acompanhando de Célio Barbosa na solenidade de formatura

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