Economia

Fifa deve lucrar R$ 23,7 bilhões com a Copa do Mundo

Valor inclui direitos de transmissão, patrocínio com grandes marcas e royalties
Fonte: G1 | Editor: Paulo Pincel 14/07/2018 08:52
Copa do Mundo Copa do MundoFoto: ESPN Brasil - Uol

Entre as milhares de camisas de seleções como a brasileira, a francesa, a alemã, a argentina, a croata ou a russa, um uniforme é onipresente nas ruas e estádios de todas as cidades-sede da Copa do Mundo da Rússia.

As camisas vermelhas ou azuis dos voluntários da Fifa e do Comitê Organizador Local da Copa vestem jovens vindos de toda a Rússia com o propósito de trabalhar em 20 diferentes funções que vão desde apoio e prestação de informação em ruas, aeroportos e estádios até credenciamento, suporte a profissionais de imprensa, logística e operações ou assistência a jogadores e autoridades.

Apesar de se registrar como entidade sem fins lucrativos, uma estimativa feita pelo jornal New York Times a partir de documentos fiscais da Fifa indica que a federação deve lucrar US$ 6,1 bilhões (ou R$ 23,7 bilhões) com direitos de transmissão, contratos de patrocínio com grandes marcas e royalties.

Superior ao PIB de países como o Suriname, Serra Leoa ou Cabo Verde, o lucro dos jogos levanta uma questão delicada: por que mais de 30 mil pessoas que trabalham muitas vezes mais de 8 horas diárias para a Copa da Fifa acontecer não ganham um salário?

Considerando o salário mínimo mensal russo (11,163 rublos, ou R$ 695) e os 17.040 voluntários do Comitê Organizador somados aos 18 mil voluntários nas 11 cidades-sede, o valor bruto economizado pela Fifa com o pagamento mensal destes trabalhadores chegaria a R$ 24,3 milhões.

Se a conta incluir encargos trabalhistas exigidos pela legislação russa como previdência, o valor aumenta em 30% e chega a R$ 31,6 milhões. A estimativa foi feita pela BBC News Brasil a partir dos registros da Thompson Reuters Practical Law, que reúne informações atualizadas sobre mercados, legislação e relações trabalhistas em dezenas de países.

Os números foram enviados pela reportagem para a Fifa, que respondeu a alguns questionamentos, mas não fez comentários sobre valores.

'Gratidão aos voluntários'

Na última quarta-feira, a secretária-geral da Fifa, Fatma Samoura, fez uma visita aos voluntários e expressou "sua enorme gratidão".

"Vocês são o coração e alma desta Copa do Mundo. Vocês são os que permitiram que este torneio se tornasse uma realidade", disse a secretária-geral, aplaudida pela multidão de jovens.

Segundo a Fifa, as inscrições para trabalho voluntário neste ano bateram recorde e chegaram a 176,8 mil. "O número recorde de inscrições recebidas para a edição de 2018 da Copa do Mundo da Fifa mostra o interesse de pessoas ao redor do mundo por uma experiência que, apesar de não remunerada, representa uma satisfação pessoal sem precedentes e, em muitos casos, profissional", disse um porta-voz da entidade à BBC News Brasil.

Questionada sobre as estimativas de lucro recorde e se pretende rever o modelo do voluntariado, a Fifa disse que "o voluntariado é, em sua essência, uma assistência sem gratidão financeira, ligada à satisfação de contribuir para a realização de algo importante para a comunidade. Em grandes eventos em todo o mundo, os programas de voluntariado são uma prática comum e, precisamente, um dos elementos que tornam sua atmosfera tão única."

Sobre a falta de pagamento, a entidade disse que "ao mesmo tempo em que fornecem apoio operacional significativo à Fifa e ao Comitê Organizador Local (COL), os voluntários também têm a oportunidade de conhecer e trocar experiências com pessoas de diferentes países e origens, incluindo idosos e pessoas com deficiências".

"Os voluntários da Copa do Mundo da FIFA de 2018 receberam todo o necessário para cumprir seus deveres, como uniformes da marca Adidas, alimentos e bebidas, acomodação para estrangeiros ou voluntários de outra cidade que pediram, transporte gratuito dentro da cidade e apoio para vistos", prossegue a Fifa.

A informação contradiz o próprio site do voluntariado da Fifa, que diz que "se você não é da cidade-sede do torneio, você precisará pagar pela sua transferência para a cidade e acomodação".

A BBC News Brasil levantou a contradição e perguntou quantos voluntários tiveram sua acomodação paga. A Fifa não respondeu ao questionamento.

'Pesado, mas vale a pena'

Em pelo menos quatro cidades-sede da Copa, a BBC News Brasil conversou com voluntários que trabalham para os jogos - na maioria, jovens.

A maior parte se mostra feliz com o trabalho, a interação com estrangeiros e a chance de a experiência facilitar novas frentes de emprego (remunerado) no futuro.

"É uma chance de conversar com estrangeiros e mostrar que nosso país é receptivo e alegre", disse um voluntário da Fifa Fan Fest de Rostov-on-Don, palco da estreia do Brasil na Copa.

A reportagem perguntou sobre a carga de trabalho. "Em dia de jogos, fico em pé por 8, 10 horas, indo de um lado para o outro sem parar", responde o jovem de 19 anos. "É pesado, mas vale a pena."

Em aeroportos como o de Samara ou São Petersburgo, grupos de voluntários ajudam estrangeiros a localizarem companhias aéreas, áreas de embarque e de transporte público. Sorrindo, uma das voluntárias disse à reportagem que torcia para que o esforço ajudasse seu currículo.

"É de graça, mas conseguir bons empregos não é fácil e a gente faz um esforço agora para colher os frutos mais tarde", disse uma jovem à reportagem.

A BBC News Brasil também conversou com especialistas em governança esportiva e nos métodos empregados pela Fifa em relações com times, federações e empresas.

'Matemática da Fifa'

"Sim, estas funções deveriam ser pagas", avalia o cientista político americano Roger Pielke, professor e diretor do Centro de Governança do Esporte da Universidade do Colorado.

"A economia geral com o pagamento dessas funções é pequena se comparada ao dinheiro ganho pela Fifa na Copa do Mundo. Leve em conta que a candidatura vencedora dos EUA (junto a México e Canadá para a Copa de 2026) promete US$ 11 bilhões em lucro. Portanto, o dinheiro está aí."

O especialista lembra que, no entanto, há interesse pelas posições sem salário nos jogos.

"Este é um mercado e se há demanda para essas posições voluntárias com pagamento zero, dificilmente se pode culpar a Fifa por aceitar o trabalho gratuito. A Fifa, obviamente, não está sozinha no uso de voluntários, basta olhar para o golfe e o tênis, entre outros esportes."

À reportagem, a Fifa ressaltou que, apesar dos milhares de voluntários, contratou "milhares de pessoas na Rússia em diferentes funções, como segurança, pessoal de limpeza, alimentação e bebidas, motoristas etc."

"O pessoal de segurança, por exemplo, reúne mais de 38 mil pessoas", diz o porta-voz.

O professor americano observa que, ainda assim, "a matemática dos orçamentos da Fifa indica que eles poderiam pagar uma quantia aos voluntários sem ter qualquer prejuízo".

"Dado que há um número recorde de pessoas querendo ser voluntárias, parece difícil dizer que elas estão sendo exploradas. Eu acho que muitos vêem o voluntariado como uma oportunidade para uma parte de um espetáculo verdadeiramente global", diz. "Dito isso, a Fifa faz uma enorme quantidade de dinheiro e seus executivos notoriamente viajam em grande estilo. Não me parece bom ganhar dinheiro com o trabalho não pago, mesmo que estas pessoas optem por trabalhar de graça."

'Voluntários não pensam em fazer dinheiro'

Para o jornalista britânico David Conn, que investiga relações políticas e econômicas no futebol e escreveu o livro The Fall of the House of Fifa: The Multimillion-Dollar Corruption at the Heart of Global Soccer (A queda da casa da Fifa: a corrupção multimilionária no coração do futebol global, em tradução livre), o voluntariado é importante para o clima de grandes eventos, mas a Fifa também daria um bom exemplo se pagasse estas pessoas.

"Um evento como a Copa traz cifras multimilionárias com a negociação de direitos de televisão, patrocínios de televisão e investimentos estatais enormes", diz Conn, que é colunista do jornal britânico The Guardian, à BBC News Brasil.

"E o apelo afetivo de um evento como este para as pessoas ainda é enorme. A Copa é vista no mundo inteira e é tão valiosa porque as pessoas apoiam seus países e o torneio com inocência e paixão", afirma. "Este tipo de amor ao esporte por si mesmo, que é parte de um 'ethos' amador, é uma fatia importante do evento e de sua comercialização. Não há surpresa em ver tantas pessoas preparadas para se voluntariar, elas não estão pensando em fazer dinheiro. É inspirador ver tantas pessoas dando seu tempo e participando, nós celebramos muito isso na Olimpíada de Londres."

Por outro lado, ele ressalta que "o fato de as pessoas não pedirem para ser pagas não significa que elas não devam ser".

"O presidente da Fifa tem um salário de milhões de dólares anuais. Empresas pagam milhões para ganhar uma imagem global positiva com o evento. Eu entendo o ideal do voluntariado e de preservar um clima de amadorismo no esporte, mas o futebol hoje é profissional. Jogadores e técnicos são bem pagos, as pessoas pagam para assistir aos jogos", diz o britânico.

"A Fifa diz que quer deixar um bom exemplo para o mundo", lembra Conn. "Entendo a importância do espírito voluntário, mas acho que ele pode ser preservado se for pago. Muitos dos funcionários da Fifa, por exemplo, são apaixonados pelo esporte e amam o que fazem. Isso é um exemplo de que as duas coisas podem caminhar juntas. A Fifa daria um bom exemplo se decidisse remunerar estas pessoas."

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