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Cerrado do Piauí é um dos que mais sofrem pressão para plantio da soja

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Fonte: UFMG 25/07/2013 15:03 - Atualizado em 07/09/2016 14:38
A julgar pelas aulas de colégio, ele é o patinho feio entre os biomas no Brasil. Mas, embora não seja exuberante como a Mata Atlântica e Amazônia, o Cerrado vai muito além do estereótipo ilustrado por árvores secas e retorcidas.

É o segundo bioma brasileiro, presente em dez estados, mais o Distrito Federal, ocupando 24% do território nacional. Abriga 33% da diversidade biológica do pais, com alto grau de endemismo, e as nascentes de algumas das principais bacias hidrográficas – por isso, é chamado de “berço das águas”.

Essa riqueza tem sofrido enorme pressão nos últimos anos. A grande ocupação agropecuária, principalmente com bovinos, soja e cana-de-açúcar, que transformou o Cerrado na nova fronteira agrícola brasileira a partir da década de 1970, provocou desmatamento crescente. Por outro lado, o bioma demonstra grande capacidade de regeneração. Mas como estará o Cerrado em algumas décadas?

Pesquisa de mestrado desenvolvida no Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (IGC/UFMG) partiu de combinação de série de variáveis socioeconômicas para projetar cenários até 2050. O objetivo é contribuir para a elaboração de políticas públicas que direcionem o avanço das atividades agropecuárias na região de Cerrado.

“As quantidades de mudanças foram calculadas por município e alocadas espacialmente. O estudo projeta perda de 14 milhões de hectares (taxa anual de desmatamento de 0,16%) e regeneração de por volta de 18 milhões de hectares (taxa de 0,79% ao ano)”, relata o autor da dissertação, Thiago Carvalho de Lima, que integra equipe do Centro de Sensoriamento Remoto (CSR) do Instituto de Geociências (IGC) da UFMG.

Segundo ele, um dos caminhos deve ser o aproveitamento de terras abandonadas – pelos criadores de gado, por exemplo – em vez da utilização de novas áreas de vegetação nativa para a expansão da agricultura.

Algumas das variáveis que alimentaram o software utilizado para os cálculos são o efetivo bovino (cabeças por hectare), altitude e atração urbana. “Em regiões mais altas, o desmatamento é menos provável, uma vez que é mais caro plantar devido ao maior custo de mão de obra. A proximidade a áreas já desmatadas, seja para fins de urbanização ou para atividades agropecuárias, tende, por outro lado, a atrair novas manchas de desmatamento com a expansão da ocupação humana e de áreas de cultivo”, comenta o pesquisador. Segundo ele, a pecuária tem papel preponderante nesse cenário, uma vez que o cerrado abriga 40% da criação brasileira destinada à exportação.

Mapa de probabilidade

Dados fornecidos pelo IBGE relativos ao período entre 1995 e 2006 permitiram traçar padrões de comportamento de 1.192 municípios e, a partir daí, produzir simulações em bases anuais. Os dados resultantes geraram mapas que refletem probabilidades de mudança em toda a extensão de incidência do Cerrado brasileiro, que hoje tem 60% de sua cobertura vegetal nativa destruída.

De acordo com Thiago Lima, áreas em Tocantins, Bahia e Piauí estão entre as que mais sofrem pressão da cultura da soja. Na região central do Mato Grosso, a faixa de Cerrado que faz divisa com a Amazônia também se inclui entre as mais sensíveis, já que a vigilância é mais intensa neste bioma, e o desmatamento vaza para o Cerrado.

Ele ressalta ainda que a proteção oferecida pela legislação tem alcançado bons resultados no Cerrado, caso das Áreas de Preservação Permanente (APPs). No entanto, as mudanças impostas pelo novo Código Florestal, aprovado em 2012, podem levar à liberação de parte dessas áreas para desmatamento. “O problema é que apenas 4% da área coberta pelo Cerrado é preservada em unidades de conservação. Aumentar esse percentual seria uma forma eficaz de proteger remanescentes importantes dentro do bioma”, afirma Thiago Lima.

A alteração nas regras de proteção é um dos fatores que contribuem para criar novos cenários que devem ser considerados por pesquisas futuras. Segundo Thiago, o desdobramento natural de seu trabalho é a criação de submodelos que considerem situações emergentes e se concentrem em territórios mais restritos, com características específicas (como áreas de expansão da soja e outras em que o desmatamento esteja consolidado).

“O estudo constata que o Cerrado tem boa capacidade de regeneração, mas é um bioma sensível, entre outras razões, em função do contato com quase todos os outros biomas (a exceção é o Pampa). O refinamento dos estudos certamente terá papel importante na elaboração de políticas mais eficazes contra a invasão de áreas vulneráveis”, diz Thiago Lima.

O coordenador do Centro de Sensoriamento Remoto e orientador da dissertação, professor Britaldo Soares Filho, lembra que a modelagem de mudanças no uso da terra é hoje importante instrumento de planejamento territorial. “O trabalho do Thiago integra o nosso programa de pesquisa que visa conciliar conservação com desenvolvimento agrícola”, afirma Britaldo.

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