O centenário da Academia Piauiense de Letras

Academia Piauiense de Letras Academia Piauiense de LetrasFoto: Reprodução

Alváro Mota

Advogado

A celebração do centenário de fundação da Academia Piauiense de Letras (APL), na última quarta-feira, 24, foi um acontecimento singular na história da cultura, da literatura e do compromisso da instituição com a sociedade. Isso porque não marcou simplesmente o centenário em si da instituição, mas os 100 anos de uma ousadia de intelectuais que enxergaram mais longe quando se dispuseram a criar uma instituição voltada às letras num tempo em que ler e escrever era praticamente um privilégio em nossa terra.

Fundada em 1917 e instalada em 24 de janeiro de 1918, no percurso de 100 anos de existência a APL tem sido presente em todos os fatos importantes da vida cultural do Piauí, sendo além disso a guardiã de uma cultura escrita garantidora de nossa identidade como um povo, de manutenção e preservação de nossas história e memória, bem como a instituição que se presta a ser sempre a salvaguarda da língua, que bem disse Caetano Veloso, é a nossa pátria.

Essa salvaguarda da língua, da história, memória e cultura do povo piauiense vem sendo o mais importante esteio da instituição centenária, surgida da vontade e ousadia de escritores já consagrados em finais do século XIX e na primeira metade do século XX, como Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, Antônio Chaves, Baurélio Mangabeira, Alcides Freitas, Edson Cunha, Fenelon Castelo Branco, que, não sem justa razão, hoje são homenageados com os nomes de importantes vias públicas, escolas e outros logradouros públicos.

No entanto, bem mais do que ocupar espaço físico na memória coletiva do Piauí, os fundadores da APL devem fazer parte de algo muito maior: são como pais fundadores de um espaço mantenedor de nossa cultura, da memória e da história da gente piauiense e isso nos deve servir de guia para seguir mantendo esse trabalho iniciado 100 anos atrás.

Aliás, sobre isso, é razoável que se declare ter sido o êxito de 100 anos da APL resultado de um trabalho conjunto, movido pelo espírito de liderança de tantos quanto presidiram a instituição.

De Clodoaldo Freitas a Mathias Olímpio, de Martins Napoleão a Simplício Mendes, de A. Tito Filho a Manfredi Cerqueira, de Paulo Freitas a Nelson Nery Costa, a Academia teve sempre bons Presidentes, todos eles dedicados e empenhados em assegurar o bom desempenho da instituição – certamente espelhado no que foi feito em nível nacional com a criação da Academia Brasileira de Letras, duas décadas antes da congênere piauiense.

A exemplo da Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, a criação da Academia Piauiense de Letras foi um ato de ousadia dos intelectuais da época, que passaram a programar, com independência e liberdade, as ações culturais do Estado. Graças a esse esforço e ousadia, frise-se, tem-se preservados muitos escritos que são a base para manutenção e expansão da inteligência produzida em nossa terra.

Por tudo isso, há boas razões para vermos de importância e grandeza a celebração do centenário de uma Academia de Letras, posto que a instituição é a guardiã primeira de trabalhos individuais de literatura, história, memória, registros de cultura popular e folclore em nossa terra. Sem a APL, é provável que muito do que se escreveu no Piauí ao longo dos últimos 100 anos se tivesse perdido nos desvãos do esquecimento, no limbo da ignorância, nos umbrais do impedimento de se acessar tal conhecimento.

É revigorante, com efeito, que se tenha celebrado os 100 anos e que tal evento se projete como um caminho para o futuro, com vistas à preservação do passado, espaço para se manter vivas as nossas culturas, conhecimentos e tradições.

A celebração do centenário, presidida pelo Advogado e Acadêmico Nelson Nery Costa, deixou evidente essa escolha de andar para frente com fito de preservar nossa escrita, pois foi ponto alto desta o projeto editorial Coleção Centenário. São mais de 80 livros já editados e outros prontos para lançamento, numa revolução editorial jamais vista no Estado. No Brasil não temos conhecimento de um projeto tão ousado e de resultados positivos como este.

Está de parabéns a Academia. Estão de parabéns todos os acadêmicos pela bela festa realizada no Cine Teatro da Assembleia.

Além dos bons discursos proferidos por Wilson Brandão e Charles Camilo da Silveira, o evento consagrou-se com o lançamento do livro do Centenário, de autoria do Desembargador e Acadêmico Nildomar da Silveira Soares, um painel amplo e atualizado da História da instituição, amplamente ilustrado e com informações seguras de toda a trajetória da Academia.

Esta é a glória que fica, honra e enaltece a memória, história e cultura de nossa gente piauiense.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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