OLHE DIREITO!

Por Álvaro Mota

Lembranças juninas

*Por Álvaro Fernando Mota

Junho é um mês em que sem dúvida o nordestino, esteja onde estiver, é tomado pelo espírito de festividades simples, embaladas por folguedos como as quadrilhas, os arrasta-pés do forró, os bumba-meu-boi do Piauí e Maranhão, os grupos de xaxado, coco e outros ritmos. Tudo isso nos faz também dar uma volta ao nosso passado, porque desde muito cedo o nordestino é apresentado à sua tradição de festejar os santos juninos.

Acredito que todo mundo tem ao menos uma boa lembrança de sua infância ou adolescência em relação a junho e suas festas tão marcadamente nordestinas. Eu tenho muitas dessas recordações.

São memórias gustativas, da comida própria da época como as batatas doces ou abóboras assadas no borralho das fogueiras que hoje ficam mesmo só nas lembranças, porque o mundo mudou a queimar madeira não é mais algo aceitável.

São as memórias auditivas das músicas de Luiz Gonzaga para animar as quadrilhas e sobre isso a gente se enche de recordações das roupas remendadas de propósito ou dos chapéus de palha e bigodes de carvão pintados nos meninos para que pudessem ser uma representação dos homens do sertão.

Trazemos em nós as memórias dos estampidos das bombinhas e rojões e dos cheiros de comidas ou até da madeira usada nas fogueiras.

Nesse recordar junino, uma das melhores lembranças que me acompanha é a dos eventos que se davam no Sítio Floresta, de minha tia-avó Erotides Pereira Correia, esposa de meu tio-avô Álvaro Sisifo da Motta Correia, de quem herdei o primeiro nome, como homenagem que meu pai quis lhe prestar e que me honra agora.

Minha tia mandou erigir uma capela em devoção a Nossa Senhora da Conceição, na propriedade que tinha na Estrada da Catarina, hoje parte urbana de Teresina. A capelinha, feita sob inspiração em outra capela no Rio de Janeiro, onde moraram meus tios Erotides e Álvaro Sisifo. Ainda hoje a capela está lá, com sua beleza e humildade devocional à mãe de Jesus Cristo.

Em torno desta capela, faziam-se celebrações. Uma delas era o almoço para os pobres de Santo Antônio, que ocorria no dia dedicado ao santo, em 13 de junho. A outra em 13 de dezembro, para lembrar Nossa Senhora da Conceição. Em ambas as festividades religiosas havia quermesses, novenas e cânticos religiosos que ganhavam especial atenção. A celebração de uma missa à noite completava a festividade.

Eu, menino, não tinha a compreensão do que se passava. Ficava mesmo era impaciente, na companhia do meu primo Álvaro Arthur e alguns amigos, dentre eles o Fernando Eulálio. A nós interessavam mais os banhos no rio Poti, as brincadeiras em torno da fogueira, os fogos. O que a gente queria era que acabassem as rezas e as devoções para que aproveitássemos o que para nós importava numa festa junina: comer as gostosuras que eram feitas numa fartura incomum.

Passadas algumas décadas, agora tenho a compreensão de como a devoção religiosa é e segue sendo importante na cultura nordestina. Não sou homem religioso demais nem de menos, mas o tempo nos ajuda a entender melhor as coisas, a compreender a importância de se manter tradições como as festas juninas, que tantas lembranças, que o tempo se encarregou de alterar na forma, jamais na essência.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Atual Presidente do Colégio de Presidentes dos Institutos dos Advogados do Brasil.

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