Artigo Fernando Castilho: Nossos deuses do Olimpo

Os Deuses do Olimpo, Giulio Romano (Orbetto) Os Deuses do Olimpo, Giulio Romano (Orbetto)Foto: Reprodução/google

Friedrich Nietzsche em O Eterno Retorno, define o que é para ele a vontade de poder. O conceito de vontade de poder pode ser entendido como o desejo insaciável de se ser mais do que aquilo que se é presentemente.

Mas foi Michel Foucault quem melhor explicou a vontade que os homens têm de exercer o poder sobre os outros e os signos que para isso criaram.

Simplificando, o melhor exemplo que posso citar foram os quatro dias de julgamento da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para o cidadão comum foi algo fantástico!

Foram raras as ocasiões em que pudemos ver pela televisão toda a simbologia que os homens criaram para demonstrar aos comuns que eles possuem quase que uma natureza divina concedida por uma legitimidade que buscaram ao longo dos anos.

Tudo começa pela arquitetura do edifício e a decoração do ambiente onde os ministros se posicionam em posição elevada e sentam-se sobre cadeiras de encosto alto, quase tronos.

O figurino composto por ternos e gravatas finas encimados por acetinadas togas negras nos transmite a sensação de estarmos diante de deuses do Olimpo.

Por fim, a retórica. Esta não poderia ser mais divina. A fala lenta de ótima dicção, as entonações de voz colocadas no momento certo e, la crème de la crème, as citações que vão desde filósofos gregos como Platão e Sócrates, passando por juristas estrangeiros até chegarem em Pôncio Pilatos, como quis o ministro Napoleão Maia, ele mesmo ostentando vasta cabeleira branca que lhe dava um ar não comum aos demais mortais.

Sentimo-nos todos amparados diante de tanta circunstância, afinal, todos os sete ministros são pessoas legitimadas por estudos aprofundados em Direito e detentores de títulos quase de nobreza.

Porém (e lá vem um chato porém), ao refletir sobre tudo isso, veio-me a mente uma questão perturbadora: se todos os sete ministros possuem sólida formação que lhes conferiu a legitimidade de fazer parte de tão egrégio tribunal, por que a votação não foi unânime, ou quase isso? Por que o resultado terminou em 4 a 3? Tão dividido?

Ora, a resposta é mais simples do que pensava: porque os votos não foram atribuídos de forma estritamente técnica como deveria acontecer no Direito. Em outras palavras, o julgamento não foi jurídico, mas sim político. E cada ministro possui seu posicionamento político.

O próprio ministro Napoleão admitiu isso quando afirmou que sa a chapa fosse cassada, 54 milhões de votos depositados em Dilma Rousseff seriam jogados fora e o segundo lugar nas eleições, Aécio Neves assumiria a presidência, o que comprometeria a Democracia. Voto político por excelência. Sem trocadilho.

O presidente do TSE, Gilmar Mendes, autor do voto de minerva que inocentou a chapa Dilma-Temer, no dia seguinte concedeu entrevista ao jornal Folha de São Paulo, onde afirmou que o julgamento fora mesmo político para que não derrubasse dois presidentes em tão curto espaço de tempo, o que agravaria ainda mais a crise.

Então eu questiono: se o julgamento iria ser político, por que durante quatro dias sete ministros cercados de toda pompa e circunstância se ocuparam dele?

Ora, por causa da ribalta.

Justamente para mostrar ao povo onde se encontra o poder de fato. É no Judiciário que se determina o futuro do país.

O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou no dia 18 último o afastamento de Aécio Neves do Senado Federal. Passado quase um mês, a ordem ainda não foi cumprida, a exemplo de Renan Calheiros que também desafiou o tribunal e permanece no cargo.

Aécio, do alto de seu posto, o mais importante do poder Legislativo, desafia decisão do poder Judiciário.

Este é mais um símbolo de poder do qual ele não quer abrir mão.

Assim como os gregos antigos, vemos diariamente os deuses brigando entre si no Olimpo, representando todas as mesmas fraquezas que nós, os simples mortais humanos, possuímos.

É preciso que tenhamos consciência desse teatro diário em que tentam nos colocar como mera plateia, das fraquezas desse protagonistas e de nossa força enquanto grupo muito maior de indivíduos.

Como diria Nietszche:

Eu não construo novos ídolos; os velhos que aprendam o que significa ter pés de barro. Derrubar ídolos - isto sim é meu oficio.

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