Artigo Álvaro Mota: O pão nosso de cada dia

Comida ComidaFoto: Reprodução/google

Havia no passado o costume já esquecido no tempo de se agradecer a Deus pela refeição que se punha à mesa. O mundo contemporâneo com tempo regrado, alimentação às carreiras, fora de casa e nem sempre a mais saudável, tirou das pessoas também o gesto ancestral de rezar em agradecimento ao que se está comendo. No entanto, parece justo e razoável que a gente encontre um tempo para demonstrar ser grato pela comida que temos à mesa.

Se temos comida, isso já é uma dádiva e se temos mais que podemos comer naquele momento, uma dádiva maior ainda. Será tanto maior essa graça se além de mais do que podemos comer tivermos ainda a possibilidade da escolha do que iremos levar à boca, porque neste caso, mais que nos alimentar, iremos exercitar o prazer da degustação de um alimento ou bebida.

O gesto de comer por necessidade ou prazer se dá com tanta naturalidade em boa parte dos lares de maior poder aquisitivo que nem pais, tampouco filhos se preocupam em agradecer e refletir sobre esse ato quase banal de levar comida à boca.

O ato de agradecimento nos permite lembrar a existência de centenas de milhões de semelhantes nossos que não têm o mínimo para sobreviver. Louvar a Deus pelo alimento, assim, é uma forma de a gente se manter na humildade, afastando de nós a arrogância e a soberba.

Agradecer a Deus pela comida à nossa mesa, mesmo que não seja na hora ou dia em que comemos, é um bom começo para abrir nossos corações e mentes à compreensão de que quando se nos alimentamos com fartura e chance de escolhas é porque muita gente se esforçou para isso.

Conveniente se faz que olhemos para a comida como resultado do esforço de muita gente, não somente de quem a preparou, seja nossa mãe, uma cozinheira que contratamos, o pessoal da cozinha de um restaurante. Devemos ter uma compressão do longo caminho entre nossa mesa e a produção desses alimentos.

Vamos imaginar um prato brasileiro bem comum: feijão, arroz, salada verde e um bife, ou um ovo ou uma posta de peixe ou um pedaço de frango. Possivelmente, milhares de pessoas se envolveram no processo de produção desses alimentos que chegam compondo uma refeição muito básica. São pais e mães de família que, ao produzir, transportar, armazenar, vender e preparar essa comida tiraram desse processo todo o sustento seus e de seus filhos.

Então, se agradecemos a Deus pelo alimento, de alguma forma podemos estar reconhecendo bem mais que a ação divina no cultivo e produção daquilo que nos faz viver mais e melhor. Agradecer, num caso assim, significa reconhecer que muitos trabalharam, trabalham e vão seguir trabalhando para que não nos falte o pão nosso de cada dia, rememorado toda vez que cristãos rezam.

Mas como ensina o cristianismo, a fé que não se traduz em atos é uma fé morta. Daí porque o ato de agradecer pelo alimento deve estar acompanhado da compressão de onde ele vem, da importância de se valorizar o agricultor e sua atividade, de partilhar o alimento com que tem fome. Então, para além de agradecer pelo alimento, temos que compreender sua importância.

Importante que o agricultor ou o criador tenham seus ganhos, que não sejam o alvo da exploração dos que ganham mais com suas safras, enquanto eles podem até ter fome, mesmo arando a terra para dela tirar o alimento que chega à nossa mesa.

Igualmente relevante é que compreendamos que temos de que precisamos nos preocupar em que nosso consumo de alimentos não seja uma fonte de destruição da natureza. E isso podemos fazer com o gesto simples de adquirir comida cuja produção a gente tenha a certeza de que seguiu padrões de respeito às normas socioambientais. Neste sentido, tanto podemos consumir mais alimentos orgânicos ou agroecológicos quanto aqueles cultivados e produzidos em larga escala, mas com respeito ao meio ambiente e aos direitos sociais dos trabalhadores envolvidos em todo o processo.

Quando nos portamos como pessoas que respeitam os direitos sociais, o meio ambiente e a biodiversidade, comprando ou procurando alimentos cultivados e produzidos de modo mais sustentável, parece razoável supor que estamos nos aproximando mais de Deus. Afinal, possivelmente um dos meios mais belos e seguros de chegar a Deus é preservar sua obra completa, a natureza.

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