OLHE DIREITO!

Por Álvaro Mota

A morte é nascer todo dia

Fênix FênixFoto: Reprodução/google

O mundo em que vivemos não é um jogo de cartas marcadas, porque as variáveis e o imponderável são sempre maiores que as possibilidades contidas em baralho. No entanto, as cartas ou figuras da cartomancia, como o tarot, por exemplo, podem nos guiar a uma compreensão acerca das transformações do mundo.

No tarot, existe uma carta que a todos causa temor. É a morte, que tanto nos assusta, não pelo fato da morte em si, mas porque a morte esconde o desconhecido. Nós temos medo é daquilo que não conhecemos, nosso medo é de andar por uma trilha que não conhecemos.

Ocorre muito na atualidade: um mundo novo se descortina, mas por medo nós fazemos tudo o que está ao nosso alcance para que não prevaleçam ideias, propostas ou ações inovadoras, que rejeitamos não porque sejam boas ou ruins, proveitosas ou danosas, mas simplesmente porque não nos convém deixar a zona de conforto.

No fundo, a maioria de nós é conservadora, embora a gente teime em não admitir essa possibilidade. Gente de esquerda ou de direita, crentes ou ateus, pobres ou ricos, de que gênero for, prefere sempre uma posição confortável de não alterar muito o rumo das coisas. Ocorre, no entanto, que viver já é um exercício diário de transformação – seja física, porque envelhecemos biologicamente, seja mental, porque o envelhecimento nos faz acumular conhecimento e isso altera nosso modo de ver o mundo, às vezes para pior, mas na maior parte do tempo, para melhor.

Então, por mais conservadores que possamos ser, face nossa condição humana, é conveniente que aceitemos as transformações, pois, conforme o que se sabe sobre o tarot, a carta da morte não representa necessariamente o que se enxerga nela, o fim físico de um indivíduo, mas sim como grandes transmutações e novos espaços de realização, renascimento, criação e destruição, fim necessário.

Cabe então, nos lembrarmos que a morte física é um fim em si, mas todos os dias há pequenas mortes, porque as mudanças impostas pelo tempo nos obrigam a deixar morrer certas coisas, ideias ou projetos, sem embargo do surgimento de algo mais positivo ou melhor decorrente disso.

Apontam neste rumo da morte como um ato de transmutação da vida, as alterações possibilitadas, por exemplo, pela tecnologia da informação, que já foi chamada de telemática e depois de informática.

Como outros avanços tecnológicos produzidos pelo homem ao longo da História – como o fogo ou a descoberta da roda, da escrita e da matemática –, a tecnologia da informação alterou relações de trabalho e de consumo, o que representa abarcar quase todo o espectro econômico global. Isso faz ruir fronteiras e mata regulamentos legais, fazendo surgir algo novo e aparentemente ameaçador para substituir algo depositado na zona de conforto das regulações locais, regionais e nacionais.

Portanto, mudanças sobre relações de consumo como as possibilitadas por aplicativos para contratar transporte individual ou hospedagem – só para ficar nos mais usados – devem ser encaradas menos como a morte e mais como a fênix, que ressurge das cinzas, uma ideia bem interessante para esses dias atuais de mudanças a toque de caixa: a fênix é como o Sol que todos os dias se põe, mas após uma noite (escuridão e cinzas) renasce para que a gente se ponha a trabalhar para manter, prolongar e reinventar a vida.

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