Artigo Fernando Castilho: A quase queda de Brasília

A Queda da Bastilha - Jean-Pierre Houël. Bibliothèque nationale de France, 1789 A Queda da Bastilha - Jean-Pierre Houël. Bibliothèque nationale de France, 1789Foto: Reprodução/google

Ao lermos os jornais e assistirmos aos telejornais da Globo, às vezes temos a impressão de que vivemos em dois mundos ao mesmo tempo.

A emissora dos irmãos Marinho resolveu lutar pela defenestração do presidente Temer enquanto outros órgãos de imprensa, ainda atônitos com a gravação contra ele, feita por Joesley Batista, do grupo JBS, tentam defendê-lo com um olho nas reformas trabalhista e da previdência.

Os motivos dessa disputa ainda não são claros.

Michel Temer num primeiro pronunciamento após a denúncia, mostrou-se cambaleante mas já no segundo foi firme em afirmar que não renuncia.

Porém, se o presidente já havia perdido o apoio diário do principal órgão de mídia, não contava com o fator povo.

A greve geral do dia 28 de abril e as comemorações do dia 1° de maio foram grandiosas mas o que se viu no dia 25 de maio em Brasília foi muito assustador para ele.

Consideremos por baixo 50 mil manifestantes marchando pacificamente em direção ao Palácio do Planalto, bradando pelas Diretas Já, contra um efetivo de mil e tantos policiais militares. É óbvio que se Temer não ordenasse a repressão, as centrais tomariam a sede do governo e expulsariam seus ocupantes. É assim que acontecem as revoluções.

Temer, assustadíssimo, imaginou que o efetivo não daria conta se o movimento continuasse no dia seguinte e viu-se obrigado a lançar mão das Forças Armadas.

Impressiona o fato de que o ministério da Justiça não colocasse em ação seu serviço de inteligência que facilmente constataria que no dia seguinte não haveria mais risco porque a manifestação fora convocada somente para a quinta-feira. Portanto, desnecessária e inutilmente desgastante a convocação do exército.

É certo que o governo foi atingido por um golpe mortal e está com os dias contados.

O blog Nocaute do escritor Fernando Morais noticiou que no final de semana caciques tucanos e do PMDB avaliaram a situação e estão negociando uma saída de Temer que não passe pela sua prisão. Talvez um pedido de perdão a ser aceito pelo STF. Veremos.

Agora vivemos uma situação inusitada.

A direita e os que se dizem apolíticos vivem uma contradição pois para contrariar a esquerda que exige Diretas Já, têm que, por coerência, ser a favor da eleição indireta para o sucessor de Temer. Isso implica em aceitar que as reformas sejam tocadas a toque de caixa pelo próximo presidente que pode ser Henrique Meirelles ou Rodrigo Maia, o que prejudicaria a todos. Um tiro no pé.

Lula neste momento desponta como o grande favorito. Porém, raciocinemos.

A eleição levaria alguns meses para ter seu resultado, afinal nada acontece de um dia para outro.

A campanha para 2018 deve começar em junho do ano que vem. Portanto, o eleito agora, teria poucos meses para governar com esse mesmo congresso enrolado na Lava Jato. Praticamente teria muito pouco a fazer e receberia muitas cobranças da população. O desgaste seria grande.

Por tudo isso, não há segurança de que Lula participe. Talvez considere se poupar para 2018, talvez, na falta de um nome para a esquerda, vá para o sacrifício ou abra mão para Ciro Gomes.

Embora Lula possa emprestar seu prestígio a Ciro, como fez com Dilma, outros nomes razoavelmente colocados nas pesquisas podem embaralhar o jogo, como Bolsonaro, Marina Silva ou até mesmo João Doria.

Todos eles não hesitariam em levar as reformas adiante.

Fica, portanto, a reflexão.

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Fernando Castilho

Arquiteto, Professor e Escritor Trabalhou com Urbanismo, lecionou vários anos no Japão e é palestrante

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