OLHE DIREITO!

Por Álvaro Mota

A felicidade existe?

Por Álvaro Fernando Mota

Mais do que o dinheiro e bens materiais, o ser humano persegue a saúde perfeita e a felicidade. A saúde, já se sabe, tem-se como adquirir através do dinheiro, de hábitos saudáveis, de uma vida onde mais seja menos. Mas e a tal felicidade? Como afinal de contas nós podemos ter a felicidade? Não existe resposta pronta, porque a felicidade não cabe numa pergunta nem é coisa que se meça, se prenda, se acumule, se possa pegar como mercadoria numa prateleira de loja ou supermercado.

No final do ano passado, escrevi um texto sobre uma pessoa que eu acredito ser realmente feliz, o estimado amigo José Martins Lopes, o Pimbas. Ele sempre conta a sua ideia de o que é ser feliz: estar cercado de amigos e da família, ter boa saúde e pensar pouco em dinheiro.

O pensar pouco em dinheiro é um ensinamento: quem pensa muito em dinheiro ou tem demais ou tem de menos. Assim, o excesso ou a falta de dinheiro poderiam ser um impeditivo para que uma pessoa seja feliz.

Mas vamos botar a coisa de outro modo: o excesso ou a falta de dinheiro somente impedem a pessoa de sentir-se ou estar feliz se a gente encarar a riqueza ou a pobreza como duas coisas que se medem pela quantidade de papel-moeda que um indivíduo possa ter. Nunca a gente pensa em riqueza ou pobreza como um estado de espírito ou ainda algo que se possa medir, por exemplo, pela quantidade de tempo que uma pessoa possa ter para ficar com seus filhos, amigos e familiares. Ou ainda que se possa medir a riqueza pela possibilidade de mais contato com a natureza.

Vamos imaginar, então, uma pessoa que trabalhe dez horas por dia, seis dias por semana. Sobram para essa pessoa 84 horas em seis dias, mais o domingo, para outras atividades. Se consideramos que ela dormirá durante seis horas nos seis dias em que trabalho, das 84 horas lhe restarão 48 horas. Então, se em cada um dos seis dias de trabalho essa pessoa gasta duas horas para ir e voltar ao trabalho, são mais 18 horas, que subtraída das 48 horas restante implicam em somente 30 horas livres numa semana de seis dias.

A conta acima parece absurda, mas a maioria de nós pode ter até menos que 30 horas livres por semana para se dedicar a ficar com a família, com os amigos, em contato com a natureza, lendo um livro ou assistindo a um filme, indo a um museu ou a uma exposição de arte. Ou seja, a gente fica tempo demais envolvido em trabalho e tempo de menos envolvido com a gente e com a nossa gente.

Isso me leva a acreditar, portanto, que a verdadeira felicidade consiste em ter mais tempo para nós mesmo, para quem amamos e para o que amamos fazer.

Não estou inventando essa assertiva, felizmente. Ela está no pensamento de muitos autores, começa a virar uma regra em muitos países, que propugnam os ganhos de produtividade como um mecanismo para dar mais tempo livre às pessoas.

Nesta direção nos aponta Domenico de Mais, que em seu livro “O ócio criativo” afirma que “uma parte do nosso tempo livre deve ser dedicada a nós mesmos, ao cuidado com o nosso corpo e com a nossa mente”. Ele vai adiante ao dizer que “outra parte deve ser dedicada à família e aos amigos”. Participar da vida de nossa comunidade é uma terceira opção ao nosso tempo livre, diz o autor italiano. Ou seja, a gente precisa trabalhar para viver e não viver para trabalhar.

Há, por fim, que se considerar ainda outro bom conselho de De Masi: “A plenitude da atividade humana é alcançada somente quando nela coincidem, se acumulam, se exaltam e se mesclam o trabalho, o estudo e o jogo; isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos, tudo ao mesmo tempo.”

Ser feliz é uma tarefa que existe a gente deixar de lado muitas tarefas, portanto.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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